Estela estava eufórica como na primeira noite com Luís. Casados já algum
tempo, nem quando namoravam ele a levara a um motel, semmotivos aparentes ou
questões religiosas, simplesmente não a levara. Mas agora, este convite lascivo
a estava excitando não apenas pelo local em si ou o que fariam lá. Um motel
para Estela ganhara status de surreal e agora o imaginado se tornaria tangível.
O casamento não andava bom das pernas. Luís e Estela mau se falavam. Ela
chegou a imaginar que o mesmo não chegaria ao final do ano. Luís não deixara de
ser cuidadoso com os deveres domésticos e nem maltratava Estela. Ele de início
a ignorava e depois começou a olhá-la estranhamente. Mas o convite fez com que
todos estes medos se dissipassem.
Entraram no motel ainda de dia para aproveitarem o máximo. Seriam 3
horas de muito amor pagando menos! Pegaram um standart, a cama era redonda, o
frigobar estava vazio, mas pouco importava.
Estela começou a ensaiar um streep, mas Luís pediu para aguardar porque
tinha uma surpresa. Desceu do carro uma sidra, que já estava quente e serviu a
esposa, colocou uma música para distraí-la e ficou aguardando. Estela bebeu
toda a garrafa, merecia! Afinal, depois de uma semana corrida, cheia de idas e
vindas do banco, assinaturas de centenas de papéis, ela merecia, fora os sustos
que o marido lhe deu, momentos em que ela tinha quase certeza de que ele
pediria a separação.
Enfim a surpresa maior chegou! Luís abriu a porta do quarto meio
desconfiado. Eis que surge Ângela! Luís disse a esposa que este era seu nome.
Ela também entrou um tanto assustada, fez uma pergunta inaudível à Estela em
razão da sidra que tonteara sua cabeça.
Seria um "Ménage à trois" disse Luis, esperando para ver a
reação de Estela, que demorou dez longos segundos para aprovar a ideia com um
riso transgressor infantil. Luís a tomou
nos braços, jogou na cama. Ângela estava de espartilho e meio pudica forçou-se
a beijar Ângela, que extasiada correspondeu. Ela fazia algo proibido! Ela
queria aquilo e muito mais, queria puxão de cabelo, dominação e xingamentos.
Arfando de desejo ela se colocou de quatro pés para receber carícias de seus amantes, seu corpo desejava,
quando de repente sentiu a bebida quente subir a cabeça qual termômetro em alta
temperatura. Doeu no "cocoroto". Concentrou-se no que estava fazendo, no movimento de quadril, nas reboladas,
mas parou porque sentiu algo pingar em sua cabeça, olhou para cima e viu uma
mulher morta amarrada no teto. Nunca vira algo assim. Ela estava toda
ensanguentada, amarrada com algo que lhe fazia lembrar tecidos.
Estela gritou por Luís e nada dele, nem dele e nem de Ângela. Ela estava
completamente sozinha. Estela saiu correndo aos berros, pedindo ajuda. Lá fora
só encontrou solidão. Nada, ninguém. Havia muita poeira e sujeira. O motel era
um desleixo só, coisas quebradas e matagal. Ela chamou, berrou e balbuciou
preces sentidas.
"Posso ajudá-la?" - disse uma voz atrás dela.
Mas que filha da putisse ela pensou. O cara já deveria ter escutado o
seu desepero e ficou curtindo. Aos prantos ela o levou ao quarto e tentou
mostrar a mulher morta. Nada havia no quarto. Ela implorou para que ele
acreditasse nela. Não estava louca!
"Faz tempo que a senhora está aqui"
Sua resposta foi categórica, não estava ficando louca e acabara de
chegar com o marido e uma... a parte final Estela resolveu não contar, afinal
ele era um estranho.
"Não lhe fiz uma pergunta, Estela, foi uma afirmação! Olhe a sua
volta"
Estela só assim pode perceber a espelunca de quarto que o seu marido
alugara. Estava tudo imundo, para ser mais detalhista, estava em total abandono
e ela não se lembrava de ter estado assim antes.
"Olhe pra cima" - disse com carinho seu novo acompanhente.
Estela olhou e constatou que no teto havia apenas um grande espelho.
"O que você vai fazer agora que sabe de tudo?" - perguntou
ele.
"Vou pra casa" - respondeu ela antes de se por a caminho. Ela
sabia que o caminho era longo, que teria que andar muito, mas era o único
jeito que sabia fazer e tinha tempo de sobra para fazê-lo.
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