quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Alecrim

Todos, ou quase todos sabem que sou espírita. Para aqueles que não sabem a diferença entre um espírita e um umbandista, por exemplo, é que o espiritismo é uma denominação criada por Allan Kardec, quando ele codificou a doutrina. Ou seja, antes da codificação as palavras que denominavam alguém que crê em algo além da matéria, ou a religião/doutrina que prega a existência do espiritual, eram denominadas, respectivamente: espiritualistas e espiritualismo. Seria igual o verbo "deletar" antes da popularização do computador.

Nós espíritas não usamos imagens, cordões, roupas de cores determinadas, não fazemos oferendas, não acendemos velas, não prevemos o futuro e muito menos trazemos seu amor em 24hs. Acho que nem a umbanda faz tudo isso. Por que somos melhores? NÃO porque sabemos que não há necessidade.

A doutrina espírita tem por base a pluralidade das existências, a comunicabilidade com o mundo espiritual e a imortalidade da alma. também, é claro, a existência de Deus. Mas nem sempre eu fui totalmente espírita mesmo. Parece um termo estranho este, mas eu explico. Quando mais nova eu frequentei muitos lugares que hoje eu sei, não eram Centros Espíritas. Era uma miscelânea da doutrina espírita com umbanda e candomblé, tudo junto e misturado.

Frequentei casas de senhoras que liam a sorte na cartas, previam o futuro e até ministravam banhos. Algumas delas eu lembro com carinho e saudades, pois em sua simplicidade me ensinaram o respeito a todos os espíritos, desde o simples trabalhador até o mais puro. Outras eu tenho paúra só de lembrar. Conheci uma que oferecia comida aos espíritos. Pelo amor de Deus! Era cada gororoba que se eu fosse um espírito dava um surra nela por tal afronta. Era um grude pegajoso. Eu também sentia "éca" da casa dela, cujas paredes serviam de maternidade para os milhares de carrapatos de seus cachorros. Affff!

Lembrando que eu tinha conhecimento da doutrina apenas através dos romances. Não estou aqui criticando aqueles que fazem oferendas de comidas, velas etc às entidades. Como espírita, sei que os espíritos não precisam disso, mas quem sou eu pra julgar?! Não confundam oferenda com sacrifício de animais! Isto não é certo e não é umbanda!! É feitiçaria até onde eu entendo.

Estas lembranças foram reavivadas em razão do pé de alecrim que tenho em casa. Ontem eu o cheirei e me veio aqueles doces momentos de benzeduras, onde entidades como Preto Velho, Vózinha, Baiano, me aconselhavam e davam ânimo para continuar a luta. Tenho muito carinho por eles. Na escala de espíritos eles estão mais próximos de nós, os encarnados. E aí está a graça. Eles sabem o que é não ter dinheiro, não ter o pão material pra comer, enfim eles sabem onde o calo aperta.

Se você, caro leitor, for pedir ajuda para derrubar um muro. Você chama peão, braçal daqueles bem parrudos, ou chama advogados de mãos macias? Vejam bem, antes que algum fanático religioso me acuse de estar adorando outros deuses, já deixou dois avisos. Primeiro: o blog é meu e eu escrevo que eu acredito. Não gostou? Cai fora. Segundo, nada que eu peça aos espíritos simples, aos anjos ou até aos santos, absolutamente nada acontece sem a autorização de Deus. Estamos entendidos?

Se algum dia tiverem a oportunidade, vão a uma festa de Cosme e Damião. Saiam desse pedestal religioso que sua crença diz que você está. Hummm que saudades dos doces, balas e da molecada espiritual fazendo farra. Criança é sempre criança... encarnada ou desencarnada. 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Melhor Idade

Dia desses eu fui ao supermercado aqui em Maracaí. Comprei coisas básicas pra casa. Uma coisa que desde adolescente eu quis fazer quando tivesse a minha casa, fosse ela com marido ou sem, era fazer um estoque mensal de carnes no congelador. Parece meio prosaico, mas é uma economia e um aproveitamento de tempo. Quando cheguei no caixa percebi que apenas dois estavam funcionando, um deles era aqueles com quantidade máxima de itens. Eu me preparei psicologicamente para esperar uma eternidade.

A minha frente estava um senhor de idade bem avançada. Ele estava bem acima do peso, usava aparelho auditivo e um carrinho com muito pão doce, roscas e outras guloseimas que me fez engordar só de olhar. Quando ele começou a colocar no caixa sua compra da maneira mais lenta possível, meu lado preconceituoso logo reclamou uma frase que não me atrevo a repetir. Sim, eu tenho preconceitos, sinto inveja e falo mal dos outros, como qualquer espírito pequeno encarnado nesta Terra.

Um caxa abriu ao lado e é lógico que eu não consegui mudar para ele. Resolvi ficar calma e aguardar. De nada adiantaria me estressar. Cantarolei, cobicei as broas doces do senhorzinho e me perguntei: Como serei eu na idade dele? Minha mãe sempre me chamou de chata como uma velha gagá. Será que ficarei pior? Sabe como são as mães. Elas predizem ou amaldiçoam, dependendo do ângulo de visão.

Será que na idade dele um jovem vai pensar: "o que esta velha está fazendo aqui? por que não ficou em casa?" Será que serei considerada um estorvo? Quando eu era mais jovem, antes dos 30 anos, eu não queria envelhecer, até pensava em desencarnar antes disso, pois pra mim ser velho era a morte em vida, sem beleza, sem viço e sem novidades. Como eu era cretina!

Não tenho tanto medo de envelhecer, agora eu temo ser doente, desenvolver alguma patologia degenerativa, ou pior, ser doente sem ninguém por mim. Aquele senhor tão tranquilo me fez confrontar meus medos, meus fantasmas e eu nem sei seu nome.