quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Ser mãe - depressão pós parto 2

Eu nunca me senti tão sozinha. O sentimento de que eu não conseguiria estava inato. Eu tinha que lidar com a responsabilidade de ser mãe, de ter alguém dependente de mim e a consciência de que ainda sou um indivíduo. Eu escutei que tinha que priorizar a Marcela e somente ela. Não estava sendo fácil pra mim não ter meus horários, não ter controle das coisas, não conseguir ir ao banheiro tranquilamente.

Tomar banho era meu momento mais aguardado. por mim eu tomava banho por horas. Eu amo minha filha, nunca duvidem disso, entretanto eu me perguntava se teria feito a coisa certa ter engravidado. Pensamentos sobre o que eu estaria fazendo se ela não existisse vinham a minha cabeça, e me deixavam com muita culpa. Como uma mãe pode sentir isso? Como uma mulher pode pensar uma coisa dessas? Declarar isso com todas as letras me torna a pior mãe do mundo aos meus olhos e aos olhos da sociedade.

Eu me sinto o médico e o monstro. Um momento curtindo a maternidade, na outra com vontade de deixar a Marcela deitada na cama e sair correndo para não voltar mais. E este pensamento é o mais ameno que me passa. Eu me desespero por não ter controle das coisas. Gostaria de ser mais tranquila, mais não consigo. Gostaria de me sentir segura, mas não consigo.

O tempo passou e as cólicas não passavam. Marcela já tinha completado os 3 meses e ainda chorava muito. Mas algo havia mudado. Ela estava se debatendo muito. Nos pediatras, isso, ela se consultava com 2 pediatras. Um do posto e outro particular, este era para compensar o fato de não encontrarmos o do posto para alguma emergência.

A Marcela sempre estava um pouco abaixo do peso, nada preocupante. O pediatra do posto falava: "Teta nessa menina" E eu tascava teta nela. O Pediatra particular julgou que não era o suficiente e prescreveu o tal famoso complemento. Ela teria que tomar Nan. E outro pânico se somou aos meus medos anteriores, que era a possibilidade da Marcela ser desmamada.

Eu lutei muito para meu marido não comprar mamadeira pra ela, pois tinha a possibilidade de não querer pegar mais o peito. Amamentar é sublime! É o momento mais terno e maravilhoso entre mãe e filho. Por mais que eu descreva, nenhuma palavra será o suficiente para descrever a quem não viveu esta experiência. Era a única coisa da maternidade que eu me sentia segura e agora estava ameaçada.

Questionei isso ao pediatra e ele disse que dificilmente isso ocorreria. Mesmo assim eu sai arrasada da consulta. Como é difícil você ter medo e as pessoas não compreenderem, ou pior, acharem que você está fazendo drama. Eu já escrevi isso e repito, desde que a Marcela nasceu não tem um dia que eu não tenha medo, que eu não chore.

E hoje o meu maior medo aconteceu. Meu leite parece que está em menos quantidade. Apesar de ficar com as mamas soltas para que se produza mais, eu não as sinto encher a não de manhã, depois de uma noite inteira sem amamentar a Marcela. Eu chorei muito e ainda choro. Neste final de semana, quando a situação se concretizou eu tive uma crise de choro convulsiva.

Eu me pego rezando para um milagre. Queria tanto amamentar minha filha até seu um ano, todavia, nem nos seis meses estou chegando. A ideia era dar o peito e o Nan como complemento. Hoje meus peitos são o complemento, o coadjuvante. Fico com raiva de ver ela mamando gulosamente esta porcaria da Nestlè. Sim, eu sinto inveja da mamadeira! E nesse mundo de meu Deus eu não encontro um cristão que se solidarize com a minha inconformação.

Todos dizem: é assim mesmo! Isso é comum! É até melhor... Eu não me conformo e nunca vou me conformar. Eu não cogito a ideia de deixar minha menina passar fome. Isso nunca! Que venha o tal de Nan. Mas se alguém me ensinasse algo para aumentar meu leite, eu me agarraria a esta possibilidade com fervor. Tô aceitando tudo: vitaminas, massagens, reza brava, promessa, oferenda aos orixás, chás, unguentos, o que for para sentir minha filha em meu colo se nutrindo.

Fui ao pediatra do posto ontem (19/10) e questionei, "se não existe leite fraco, por que eu não consigo nutrir minha filha?" "por que ela não ganha peso com o meu leite" A resposta foi: "muitas vezes a mãe deixa de comer algo e aí não vai nutriente pro leite" De imediato eu me lembrei da dieta que fiz para evitar as cólicas. Antes eu me sentia triste e magoada, depois dessa também me sinto culpada. Não basta toda a carga que a maternidade coloca em nossos ombros, o sentimento de culpa e erro também vem se somar ao padecer no paraíso.

(continua)


domingo, 16 de outubro de 2016

Ser mãe - depressão pós parto

Já vou avisando aos fracos de coração, se quiser ler uma narrativa romântica sobre a maternidade, por favor, vá a outro blog, pois aqui a coisa não será como se imagina. "Ser mãe é padecer no paraíso". O autor desta frase é homem com certeza, porque não imagina a dor, a solidão e as lágrimas que forjam uma mãe.

Eu acho que já comentei que ao receber a Marcela nos braços a primeira coisa que pensei foi: FUDEU. Eu não sei lidar com isso. Eu não vou dar conta. Eu não sou mãe de verdade. E agora? O que eu faço? Tem como devolver?

Eu chorei todos os dias depois que tive a minha filha. Um sentimento de impotência, de imperícia e até mesmo de incompetência se apossou de mim. Eu quase ficava paralisada de medo. Some a isso diversas histórias e lendas sobre descuido com a maternidade, temos por resultado uma depressão pós parto, mas até então eu não sabia disso.

Eu tinha tanto medo que adorava quando anoitecia e minha filha iria dormir e eu poderia me recompor emocionalmente. A única coisa que eu imaginava estar "mandando bem pra cacete" era a amamentação. Eu tinha tanto leite que estava empedrando e daí surgiu mais uma preocupação: mastite.

Um dia fui parar no hospital para aprender a me ordenhar. Isso mesmo, eu precisava me ordenhar porque a Marcela não conseguia dar conta de tanto leite e minha mama estava com febre. Nem sabonete eu passava nos bicos dos seios para não rachar. Mesmo assim, o seio direito estava machucando, e doía muito com a sucção dela, apesar disso me era prazeroso amamentá-la.

Passados 20 dias de nascida, depois de participarmos de uma reunião do Rotary meu bebê teve sua primeira crise de cólicas. Era mais uma peça para se juntar a minha doença. Ela urrava de dor e nós não sabíamos o que fazer. Fomos dormir as 4 da manhã.

Passamos a dar tudo o que nos indicavam. Funchicórea, chá de camomila, Colic Calm, Collikids etc. Sendo que o tal Colic Calm é um remédio americano que custa mais de R$ 160,00. O primeiro vidro eu ganhei de uma amiga querida. O Collikids custa em torno de R$ 60,00. Todavia todos eles são paleativos. Infelizmente só o tempo para curar.

As cólicas acontecem porque o intestino dos bebês não estão amadurecidos e após 3 meses as coisas normalizam. Você caro leitor não imagina quanta inveja eu senti das mães que diziam que seus filhos não tiveram cólicas.

De início eu me desesperava junto, depois passei a sentir raiva. Raiva de Deus, raiva da Marcela, raiva da minha vida. Eu me senti sozinha em meio ao furacão sem perspectiva de melhora. Meu marido ficava bravo comigo porque eu sempre dizia que as coisas não iriam melhorar.

Passei a fazer contagem regressiva para os três meses e intensifiquei a minha dieta. Minha menina teria cólicas, isso era fato, mas dependendo do que eu comia, as crises eram mais ou menos intensas e duradouras.

Ela chorava de dor e me olhava no fundo dos olhos, me pedindo socorro e eu nada conseguia fazer. Eu não tinha estrutura emocional para acalmar a minha filha. Minha dieta foi criticada, meus medos foram criticados e os problemas que já existiam antes do dia 13 de junho vieram a se somar com os problemas pós parto.

(continua)