sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Mais um casal comum



Estela estava eufórica como na primeira noite com Luís. Casados já algum tempo, nem quando namoravam ele a levara a um motel, semmotivos aparentes ou questões religiosas, simplesmente não a levara. Mas agora, este convite lascivo a estava excitando não apenas pelo local em si ou o que fariam lá. Um motel para Estela ganhara status de surreal e agora o imaginado se tornaria tangível.
O casamento não andava bom das pernas. Luís e Estela mau se falavam. Ela chegou a imaginar que o mesmo não chegaria ao final do ano. Luís não deixara de ser cuidadoso com os deveres domésticos e nem maltratava Estela. Ele de início a ignorava e depois começou a olhá-la estranhamente. Mas o convite fez com que todos estes medos se dissipassem.
Entraram no motel ainda de dia para aproveitarem o máximo. Seriam 3 horas de muito amor pagando menos! Pegaram um standart, a cama era redonda, o frigobar estava vazio, mas pouco importava.
Estela começou a ensaiar um streep, mas Luís pediu para aguardar porque tinha uma surpresa. Desceu do carro uma sidra, que já estava quente e serviu a esposa, colocou uma música para distraí-la e ficou aguardando. Estela bebeu toda a garrafa, merecia! Afinal, depois de uma semana corrida, cheia de idas e vindas do banco, assinaturas de centenas de papéis, ela merecia, fora os sustos que o marido lhe deu, momentos em que ela tinha quase certeza de que ele pediria a separação.
Enfim a surpresa maior chegou! Luís abriu a porta do quarto meio desconfiado. Eis que surge Ângela! Luís disse a esposa que este era seu nome. Ela também entrou um tanto assustada, fez uma pergunta inaudível à Estela em razão da sidra que tonteara sua cabeça.
Seria um "Ménage à trois" disse Luis, esperando para ver a reação de Estela, que demorou dez longos segundos para aprovar a ideia com um riso transgressor infantil. Luís a tomou nos braços, jogou na cama. Ângela estava de espartilho e meio pudica forçou-se a beijar Ângela, que extasiada correspondeu. Ela fazia algo proibido! Ela queria aquilo e muito mais, queria puxão de cabelo, dominação e xingamentos.
Arfando de desejo ela se colocou de quatro pés para receber carícias de seus amantes, seu corpo desejava, quando de repente sentiu a bebida quente subir a cabeça qual termômetro em alta temperatura. Doeu no "cocoroto". Concentrou-se no que estava fazendo, no movimento de quadril, nas reboladas, mas parou porque sentiu algo pingar em sua cabeça, olhou para cima e viu uma mulher morta amarrada no teto. Nunca vira algo assim. Ela estava toda ensanguentada, amarrada com algo que lhe fazia lembrar tecidos.
Estela gritou por Luís e nada dele, nem dele e nem de Ângela. Ela estava completamente sozinha. Estela saiu correndo aos berros, pedindo ajuda. Lá fora só encontrou solidão. Nada, ninguém. Havia muita poeira e sujeira. O motel era um desleixo só, coisas quebradas e matagal. Ela chamou, berrou e balbuciou preces sentidas.
"Posso ajudá-la?" - disse uma voz atrás dela.
Mas que filha da putisse ela pensou. O cara já deveria ter escutado o seu desepero e ficou curtindo. Aos prantos ela o levou ao quarto e tentou mostrar a mulher morta. Nada havia no quarto. Ela implorou para que ele acreditasse nela. Não estava louca!
"Faz tempo que a senhora está aqui"
Sua resposta foi categórica, não estava ficando louca e acabara de chegar com o marido e uma... a parte final Estela resolveu não contar, afinal ele era um estranho.
"Não lhe fiz uma pergunta, Estela, foi uma afirmação! Olhe a sua volta"
Estela só assim pode perceber a espelunca de quarto que o seu marido alugara. Estava tudo imundo, para ser mais detalhista, estava em total abandono e ela não se lembrava de ter estado assim antes.
"Olhe pra cima" - disse com carinho seu novo acompanhente. Estela olhou e constatou que no teto havia apenas um grande espelho.
"O que você vai fazer agora que sabe de tudo?" - perguntou ele.
"Vou pra casa" - respondeu ela antes de se por a caminho. Ela sabia que o caminho era longo, que teria que andar muito, mas era o único jeito que sabia fazer e tinha tempo de sobra para fazê-lo.